Por: Tatiana Fardo
No dia 14 de maio, os alunos do 2º ano do Ensino Médio do Colégio Miguel de Cervantes participaram de uma videoconferência com a pesquisadora e professora aposentada Constância Duarte, como parte da programação da 42ª Feira do Livro do colégio. O encontro integrou os estudos sobre a obra Cartas à Minha Filha, de Nísia Floresta, uma das pioneiras na defesa dos direitos das mulheres no Brasil.
Graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre pela PUC-Rio e doutora em Literatura Brasileira pela USP, Constância Duarte é referência nos estudos sobre literatura feminina e crítica literária feminista. Em 2021, participou da edição de Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, para a Coleção Reverbera, assinando também o prefácio e as notas da obra Conselhos à Minha Filha.
Durante a conversa com os estudantes, a pesquisadora destacou a relevância da produção literária de Nísia Floresta, especialmente por abordar a condição feminina na primeira metade do século XIX, período marcado por forte repressão às mulheres e pela consolidação de valores sociais e religiosos que sustentavam a ideia de inferioridade feminina. Segundo Constância, a escrita da autora representava uma forma de defesa das mulheres e de outros grupos historicamente marginalizados.
Ao comentar Conselhos à Minha Filha, obra estudada pelos alunos, a pesquisadora ressaltou que, embora o texto apresente orientações morais características de sua época, também convida à reflexão crítica sobre normas sociais impostas às mulheres. Entre os aspectos destacados, chamou atenção para um dos conselhos de Nísia sobre o cuidado com elogios hipócritas, entendido como um alerta para as armadilhas de convenções sociais muitas vezes alinhadas aos interesses do patriarcado.
Outro ponto abordado no encontro foi o apagamento histórico de escritoras brasileiras. Constância Duarte provocou os alunos a refletirem sobre os motivos que levaram autoras como Nísia Floresta a serem reconhecidas apenas recentemente. Para a pesquisadora, muitas escritoras sofreram um processo de invisibilização nos registros históricos, o que ela define como um “memoricídio” — um apagamento da memória promovido por estruturas de opressão ao longo do tempo.
A pesquisadora também destacou como a obra de Nísia ganha novos significados na contemporaneidade. Apesar das mudanças sociais, observou que ainda persistem resquícios do patriarcado, exemplificados, entre outros fatores, pelos altos índices de feminicídio. Nesse contexto, reforçou a importância de compreender o período histórico em que a autora viveu para reconhecer a força e a atualidade de sua produção intelectual.
O encontro permitiu aos estudantes aprofundar o conhecimento sobre a trajetória de Nísia Floresta e ampliar o debate sobre memória, invisibilidade feminina e permanência de desigualdades sociais, temas que dialogam diretamente com a proposta da 42ª Feira do Livro do Colégio Miguel de Cervantes.