A expansividade como objetivo da boa educação

Por: Maira de Cinque P. da Costa* | 28 de agosto de 2017.

Há um momento de nossas vidas em que de fato percebemos a existência dos outros. O mundo que nos cerca, antes mero reflexo de nossa individualidade, coloca-se como algo diferente, plural. Essa saída de si ao outro é não apenas benéfica, mas também inevitável. Benéfica porque a convivência e o diálogo nos tornam melhores. Inevitável na medida em que, enquanto tudo mais pode ser entendido como objeto para um sujeito, o olhar do outro nos impõe a existência de um igual. Por meio desse olhar, percebemos que, além de julgarmos, somos julgados.

Essa nova realidade pode simplesmente nos machucar ou pode nos transformar. Somos cientes de que, quando julgamos, elegemos critérios para o belo e o feio, o bom e o ruim, o certo e o errado. Difícil é encarar que outros fazem o mesmo por meio de critérios que nos escapam. E, quando as nossas certezas são assim minadas, somos tomados por uma sensação bastante incômoda. A partir dela, é comum negar-se a intersubjetividade ela mesma, o que promove o escapismo e o retorno ao egocentrismo.  Mas é essa mesma angústia que pode nos levar a firmar novos compromissos conosco e com os demais. Flexibilizando nossos próprios julgamentos e aperfeiçoando nossa comunicação, beneficiamo-nos, enquanto poupamos os demais do peso que sentimos.  

Tal atitude expressa a verdadeira sinceridade do indivíduo para consigo mesmo. Ao aceitar o olhar do outro e compreender suas consequências, desbrava a si enquanto enfrenta o mundo. Cresce, amadurece, expande-se. Contrariamente, aquele que se recolhe bate contra paredes cada vez mais estreitas, torna-se medíocre e limitado.

É por isso que uma boa educação terá como objetivo a expansividade. Para tanto, irá concentrar esforços em manter o indivíduo em crescimento, mediando suas tentativas de implosão e incentivando a empatia em relação ao outro. Além disso, essa educação irá assistir o educando no estabelecimento de critérios mais humanitários para o julgamento, contrariando por vezes a influência da cultura local. É nesse sentido que uma boa educação, ao promover o diálogo e a reciprocidade do afeto, contribui para a formação de um indivíduo ético e de um mundo melhor.

Referências Bibliográficas:
ARENDT, Hannah. A vida do espírito. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Editora Vozes, 2003


*Maira de Cinque P. da Costa é licenciada, mestre e doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo e professora no Ensino Médio do Colégio Miguel de Cervantes.