Ensino Fundamental Anos Finais
A diversidade como força: relato de atividade na prevenção ao bullying
Por: Marisol Saucedo Lage e Ivanilda Ap Moura Santos
A escola é o palco onde a identidade de nossos estudantes se constrói, e garantir que cada aluno se sinta legítimo, reconhecido e parte é o alicerce para uma comunidade segura e inclusiva.
Com esse olhar, a tutoria e a equipe de atenção à diversidade promovem atividades que despertam a percepção sobre a riqueza da pluralidade do grupo, fortalecendo os estudantes e ensinando-os a lidar com as barreiras intrínsecas ao ser humano.
Com a turma do 7º ano do Ensino Fundamental II, desenvolvemos uma sequência de atividades voltadas à valorização da diversidade e ao fortalecimento do sentimento de pertencimento fatores essenciais na prevenção do bullying.
Nessa faixa etária, a vulnerabilidade e o receio de expor dificuldades são comuns, impactando a autoestima e o desempenho. Nesse cenário, acreditamos que legitimar os pontos fortes dos estudantes é um divisor de águas para a construção de vínculos saudáveis.
A elaboração das dinâmicas teve como base o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), abordagem curricular flexível que valoriza as fortalezas, múltiplas formas de expressão e diferentes modos de aprender. A sequência foi planejada para primeiro, evidenciar as similaridades e, em seguida, promover a colaboração a partir das diferenças.
1º Momento: Jogo “Quem como eu?”
A atividade teve como propósito promover o reconhecimento das semelhanças e diferenças entre os alunos. Organizados em círculo, os participantes davam um passo à frente sempre que se identificavam com determinadas frases, como “Quem como eu gosta de esportes” ou “Quem como eu tem dificuldade para memorizar”.
A cada rodada, tornavam-se visíveis as conexões entre eles, mas também as particularidades que tornam cada pessoa única. Ao final, a reflexão destacou que compreender e valorizar a singularidade de cada um, sem julgamentos, é essencial para fortalecer o respeito, a empatia e o sentimento de pertencimento no grupo.
2º Momento: Diversidade e funcionamento humano
As reflexões dos alunos, apoiadas pelas apresentações das psicopedagogas e da fonoaudióloga, evidenciaram que o funcionamento humano é diverso e singular em cada pessoa. Fundamentadas na Neurociência e na história individual de cada sujeito, essas discussões reforçaram a ideia de que essa diversidade é justamente o que torna o ambiente escolar mais rico, acolhedor e estimulante.
3º Momento: Autorretrato “Sou bom / Preciso de ajuda”
A proposta teve como objetivo estimular o autoconhecimento, a consciência das próprias potencialidades e desafios e o fortalecimento da colaboração entre os colegas.
Cada aluno preencheu um quadro dividido em duas partes “Sou bom em…” e “Preciso de ajuda em…” identificando suas habilidades, talentos e aspectos que desejava desenvolver.
Durante a partilha, os estudantes foram convidados a reconhecer que todos possuem áreas de facilidade e de dificuldade, e que pedir ou oferecer ajuda é um gesto de confiança e cooperação. A turma pôde perceber que a diversidade de habilidades enriquece o grupo, pois o que é um desafio para uns pode ser a força de outros.
Em seguida, realizamos a Dinâmica dos Pares Solidários, em que cada aluno se associou a alguém que pudesse ajudá-lo em um ponto de dificuldade, criando uma verdadeira rede de apoio.
Como desdobramento, construímos o Mural Coletivo “Nossas Forças e Pontes”, com os autorretratos expostos. A proposta foi valorizar as potencialidades individuais e reforçar o sentimento de pertencimento. Após a exposição, os alunos identificaram para quais colegas poderiam oferecer ajuda e de quem poderiam recebê-la, estabelecendo metas de crescimento e colaboração recíproca.
As ações colaborativas tornaram-se perceptíveis ao longo do ano, fortalecendo os vínculos, a empatia e a cumplicidade entre os estudantes.
A diferença como riqueza e prevenção
Quando a escola valoriza a pluralidade cultural, física e cognitiva e promove a segurança identitária, ela transmite a mensagem: “Você é parte, e sua presença importa.”
Pertencer é sentir-se reconhecido e legítimo como se é. Esse sentimento nasce do equilíbrio entre diferença e conexão: cada um é único, mas todos são interdependentes. A convivência com o diverso amplia a empatia e reduz estigmas, desarmando os gatilhos que levam ao bullying.
A riqueza de conviver com as diversidades está justamente em saber que é na diferença que reside a força e a beleza de nossa comunidade escolar.
Esta experiência reafirma que trabalhar a diversidade não é uma ação pontual, mas um processo contínuo de escuta, acolhimento e valorização do outro. Quando a escola promove o reconhecimento e a segurança identitária, constrói uma base sólida para o combate ao bullying e para a consolidação de uma convivência ética e respeitosa.
Depoimentos:
Enrico Poli
“Eu quis falar para minha sala sobre a T21 para conscientizar os meus colegas”
Felipe Sagae
“A minha experiência de falar para os meus amigos sobre a trissomia 21 foi genial, porque eu pude compartilhar coisas que têm a ver comigo.”
Bibliografia
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Tradução de Reynaldo Bairão. Petrópolis: Vozes, 7. ed., 2014. ISBN 978-85-326-3651-5. **
CAST (CENTER FOR APPLIED SPECIAL TECHNOLOGY). Universal Design for Learning Guidelines version 2.2. Wakefield, MA: CAST, 2018. Disponível em: http://udlguidelines.cast.org. Acesso em: [27/11/2020)
LAGE, M. P. S. R. (2023). Como trabalhar a diversidade na sala de aula? In D. Gerbase, L. Ayres & R. Chaves (Orgs.), A realidade diversa na sala de aula : como lidar com a inclusão e a educação socioemocional nas escolas (pp. 248-259). São Paulo: Editora BOC.
ROSE, David H.; MEYER, Anne. Teaching Every Student in the Digital Age: Universal Design for Learning. Alexandria, VA: Association for Supervision and Curriculum Development (ASCD), 2002.
WEIL, Simone. O Enraizamento: Prelúdio a uma declaração dos deveres relativos ao ser humano. Tradução de Maria Leonor Loureiro. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
- Foto: Marina Savioli
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